Introdução
A emergência da gestão pública orientada por evidências
As cidades atualmente atuam em um contexto de alta complexidade social, pressão diversa sobre serviços públicos, muitas restrições fiscais e demandas por maior transparência e, principalmente, eficiência administrativa. A urbanização acelerada, nem sempre prevista por planejamentos, as desigualdades territoriais, advindas das ocupações irregulares, as crises climáticas, como impacto da economia, e as transformações demográficas cada vez mais imprevistas, impõem aos governos locais (em especial as cidades) desafios inéditos de planejamento e governança nos territórios.
Nesse cenário bem desafiador, a análise de dados aplicada à gestão municipal deixa de ser um diferencial tecnológico e passa a constituir um novo paradigma organizacional – ou seja, é a mais nova aliada e ferramenta de gestão pública para municípios que pretendem otimizar suas capacidades. Dessa forma, pode-se dizer que mais do que informatizar processos, ela é capaz de transformar os dados obtidos e coletados em ativos estratégicos de longo prazo, possibilitando orientar as decisões públicas (e as futuras políticas territoriais) baseadas em evidências, de forma a reduzir as ineficiências históricas locais, antecipar algumas demandas sociais e ampliar, de forma bastante enfática, a capacidade preditiva e responsiva do Estado no critérios de solução de desafios.
Por isso, com a consolidação das Tecnologias da Informação e Comunicação (leia-se TICs), o avanço de sistemas e dispositivos integrados nas cidades, como os sensores urbanos, as plataformas digitais e também as soluções de inteligência artificial, têm permitido que as municipalidades, consigam ter dados disponíveis e também monitorar os indicadores em tempo real diversos segmentos e situações, construindo modelos preditivos (ou prognósticos) e avaliem políticas públicas com maior precisão – até mesmo para poder reorientar o uso de recursos financeiros e humanos eficientemente, de acordo com as necessidades de cada municipalidade.
Para ilustrar isso, pode-se citar algumas experiências internacionais em cidades como Seul, Helsinque, Barcelona e Cingapuraque demonstram as estruturas institucionais, bem orientadas por dados, conseguem melhorar a alocação de recursos, otimizar serviços urbanos e ampliar a participação cidadã – atendendo, de fato, as demandas sociais. No Brasil, ainda que de forma desigual, alguns municípios como Curitiba, Recife, Florianópolis e João Pessoa, já avançam na construção de modelos de observatórios urbanos, centros de dados integrados e plataformas de transparência ativa que conduzam a gestão pública através de dados, e não opiniões ou “achismos”.
Dessa forma, este artigo analisa como a análise de dados está redesenhando o modelo de gestão municipal, seus impactos organizacionais, seus limites institucionais e, dessa forma, possibilita caminhos para sua implementação sustentável no contexto brasileiro da atualidade.
A base conceitual: cidades inteligentes e governança orientada por dados
Pode-se mencionar que o conceito de cidades inteligentes (leia-se smart cities) evoluiu de forma bem significativa nas últimas duas décadas. Em um primeiro momento estava associado à adoção de tecnologias, contudo no estágio atual ele é compreendido como um modelo integrado, articulando inovação digital, a sustentabilidade urbana, a governança colaborativa e com a centralidade no cidadão.
Na literatura, autores como Hollands (2008) e Caragliu, Del Bo e Nijkamp (2011) destacam que a inteligência urbana não reside apenas na infraestrutura tecnológica, mas de forma bem assertiva na capacidade institucional de transformar informação em valor público – o que é o maior desafio nos tempos atuais, pelo “excesso”, ou, frequentemente, falta, dessas informações nos sistemas.
Nesse novo contexto, a análise de dados voltadas para cidades assume papel estruturante e de um novo modelo de gestão. O uso sistemático de grandes volumes de informações – provenientes de bases administrativas, sensores urbanos, plataformas digitais e dados abertos – amplia ainda mais a capacidade do poder público conseguir responder às demandas, como:
- planejar políticas com maior precisão territorial;
- monitorar resultados de Secretarias em tempo real;
- antecipar riscos e demandas sociais;
- avaliar os impactos de cada um dos programas públicos;
- promover a transparência e o controle social por parte da população.
Essa transformação tão estimada na literatura levou pesquisadores como Rob Kitchin (2014) a cunhar o conceito de “cidade algorítmica”, na qual os fluxos de dados passam a influenciar diretamente o funcionamento urbano e, assim, a cidade é uma consequência de vários sistemas interconectados em tempo real.
Contudo, a literatura internacional também alerta para riscos relevantes: opacidade algorítmica, vieses automatizados, dependência de grandes corporações tecnológicas e fragilidades institucionais. Dessa forma, necessita-se de modelos maduros de governança digital que incorporem os princípios como ética, a auditabilidade, a interoperabilidade, a proteção de dados e a participação social.
No Brasil, temos a Carta Brasileira para Cidades Inteligentes (2020) que estabeleceu um marco estratégico ao propor uma abordagem centrada nos direitos digitais, na equidade territorial e também na sustentabilidade, alinhando a chamada “inovação tecnológica” à democracia juntamente com à justiça social.
Infraestrutura, cultura institucional e capacidades estatais: os fatores críticos de sucesso
A experiência comparada demonstra que a adoção de análise de dados na gestão municipal não depende apenas de softwares ou plataformas, mas sobretudo de três dimensões estruturantes:
1. Infraestrutura tecnológica integrada
Inclui interoperabilidade entre sistemas, padronização de bases de dados, segurança da informação e conectividade. Municípios com sistemas fragmentados tendem a perder eficiência analítica.
2. Cultura organizacional orientada por evidências
A tomada de decisão baseada em dados exige mudança de mentalidade. Gestores e servidores precisam incorporar o uso de indicadores como parte do processo decisório cotidiano.
3. Capacitação técnica contínua
Sem equipes qualificadas em análise, ciência de dados, geoprocessamento e gestão da informação, a infraestrutura tecnológica perde valor estratégico.
Cidades como Helsinque e Barcelona investiram fortemente em alfabetização de dados, tanto no setor público quanto na sociedade civil, criando ecossistemas colaborativos de inovação urbana.
Experiências brasileiras: avanços e desafios
Curitiba: inteligência territorial aplicada ao planejamento
Curitiba consolidou sistemas integrados como a Central 156 e o Observatório do Planejamento Urbano, utilizando dados para monitorar demandas cidadãs, planejar investimentos e otimizar serviços públicos. A integração com o IPPUC permite que dados sociais, ambientais e territoriais alimentem diretamente o Plano Diretor.
Resultados práticos incluem melhorias no transporte público, maior previsibilidade operacional e aumento da eficiência na resposta a demandas urbanas.
São Paulo: dados abertos e integração intersecretarial
A maior metrópole do país opera uma das maiores plataformas de dados abertos da América Latina, com mais de dois mil conjuntos de dados públicos. Iniciativas como o Centro de Gerenciamento Integrado de Mobilidade e o Observatório da Primeira Infância demonstram o potencial do uso intersetorial da informação.
O principal desafio permanece na interoperabilidade entre secretarias e na padronização institucional dos fluxos de dados.
Recife: inovação urbana e gestão de riscos climáticos
Recife destaca-se pelo uso de dados para monitoramento climático, prevenção de alagamentos e gestão territorial. A criação do Recife Data Lab fortaleceu a formação técnica de servidores e a governança ética da informação.
João Pessoa: dados como instrumento de participação social
O Observatório da Cidade de João Pessoa alia monitoramento de indicadores urbanos com ações de alfabetização de dados para a população, fortalecendo o controle social e a participação cidadã – uma abordagem ainda rara no cenário nacional.
Lições internacionais: modelos de maturidade digital
Experiências globais reforçam caminhos possíveis:
- Barcelona estruturou uma governança de dados centrada no cidadão, tratando dados públicos como bens comuns.
- Helsinque lidera políticas de transparência total, com dados acessíveis em tempo real.
- Seul opera um Big Data Bureau dedicado à inteligência preditiva urbana.
- Cingapura desenvolveu um modelo integrado de urbanismo digital com simulações tridimensionais para planejamento estratégico.
Apesar das diferenças culturais e institucionais, todos os modelos compartilham três pilares: continuidade administrativa, governança sólida e investimento permanente em capacidades técnicas.
Implicações estratégicas para gestores públicos
A consolidação da análise de dados como eixo estruturante da gestão municipal implica transformações organizacionais profundas:
- Redesenho de fluxos decisórios
- Criação de estruturas dedicadas à governança de dados
- Integração intersecretarial
- Revisão de marcos normativos internos
- Alinhamento à LGPD e às políticas de proteção da informação
Mais do que adquirir tecnologia, trata-se de implantar um novo modelo de gestão pública baseado em inteligência institucional.
Considerações finais
Dados como infraestrutura invisível da boa governança
A análise comparada demonstra que a inteligência urbana não é privilégio de países desenvolvidos. Municípios brasileiros, mesmo com restrições orçamentárias, podem avançar significativamente ao estruturar políticas de dados integradas, formar quadros técnicos e fortalecer a cultura organizacional orientada por evidências.
Cidades verdadeiramente inteligentes não são aquelas apenas repletas de sensores, dashboards e plataformas digitais, mas aquelas que utilizam dados para:
- Reduzir desigualdades
- Qualificar políticas públicas
- Fortalecer a democracia
- Aumentar a eficiência administrativa
- Promover sustentabilidade territorial
Para o Brasil, a agenda de dados urbanos representa uma oportunidade estratégica de modernização do Estado local, fortalecimento da governança pública e reposicionamento das cidades como territórios mais resilientes, transparentes e inclusivos.
Nós, da Orion Desenvolvimento Organizacional, atuamos exatamente nesse ponto de intersetorialidade entre a tecnologia, a gestão pública e, principalmente, a estratégia institucional, apoiando os governos locais na construção de capacidades analíticas, estruturas de governança de dados, preparação de recursos humanos e modelos organizacionais orientados para os atuais desafios do século XXI nas cidades brasileiras.
