Introdução
O audiovisual como ativo econômico e simbólico
Nos dias atuais, o campo da economia criativa se estruturou como um dos principais setores de crescimento econômico para os países: seja no aspecto de inovação, da indústria ou como uma forma de projeção internacional de culturas e formas de pensar. No Brasil, isso já é bem perceptível com o nosso setor audiovisual já ocupando uma posição estratégica nesse novo ecossistema, integrando a geração de empregos mais qualificados, o fortalecimento de cadeias produtivas diversas, a circulação simbólica de produtos culturais – inclusive com relação à construção de uma identidade nacional.
Esse protagonismo e empenho do campo mostraram suas evidências concretas nos últimos ciclos de premiações internacionais recentes. Para ilustrar isso, somente no ano de 2025, o filme de longa-metragem brasileiro Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, foi premiado com o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar – marco histórico inédito para o país. Nesse mesmo sentido, logo no início desse ano de 2026, o filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa – além de também receber um destaque no Festival de Cannes de 2025.
Ao analisar esses dois grandes prêmios, percebe-se que esses resultados não são apenas vitórias artísticas isoladas – pelo contrário – demonstram indicadores objetivos da capacidade competitiva do audiovisual brasileiro no mercado global. Em ambas as produções, observa-se uma narrativa local aceita e a qualidade da produção cinematográficas brasileira, validadas por essas instituições internacionais, desde a concepção de um produto cultural exportável até a premiação mundo afora. Nesse quesito, ponto para o Brasil.
Ao mesmo tempo, esse reconhecimento internacional ocorre em um contexto bem próprio do setor: ele é marcado por instabilidade regulatória, por diversos desafios de financiamento aquém do necessário e, principalmente, pela reconfiguração profunda do mercado diante do aumento expressivo da participação das grandes plataformas digitais – que aumentam sua participação ano após ano por parte do público consumidor.
De forma bem evidente há hoje um paradoxo estratégico: o Brasil demonstra excelência criativa, contudo ainda têm muitos gargalos estruturais e históricos para transformar o prestígio legitimado internacionalmente em um desenvolvimento do campo nos próximos anos. Tudo isso aliado à investimentos menores para a quantidade cada vez maior de competidores por recursos audiovisuais. Importante mencionar que mais competidores sempre é mais favorável para qualquer mercado, contudo, seria importante que o montante de recursos também fosse proporcional ao aumento de produtoras no setor brasileiro (não somente no eixo Sudeste, mas também nas outras regiões brasileiras).
Este artigo analisa de forma objetiva os principais marcos legais, a atual arquitetura institucional e também alguns dos principais desafios contemporâneos do audiovisual brasileiro, oferecendo subsídios para orientar os gestores públicos e formuladores de políticas culturais no setor na economia criativa brasileira.
Audiovisual e economia criativa: da política cultural à política de desenvolvimento
A economia criativa não se limita ao estímulo à produção artística. Trata-se de um modelo de desenvolvimento baseado em ativos intangíveis – criatividade, conhecimento, inovação e propriedade intelectual – com alto potencial de geração de valor econômico e reputacional.
No caso do audiovisual, esse potencial é ampliado por sua transversalidade: o setor impacta educação, turismo, tecnologia, comunicação, publicidade e diplomacia cultural. Cada investimento público ou privado no audiovisual tende a produzir efeitos indiretos sobre múltiplas cadeias produtivas. Em pesquisa recente, a própria FGV (2026) demonstrou que a cada R$ 1 investido em projetos executados com recursos da Lei Rouanet, R$ 7,59 retornaram à economia. Ou seja, o campo cultural é um bom negócio.
Para a gestão pública, isso implica um reposicionamento conceitual: o audiovisual deve ser tratado não apenas como política cultural setorial, mas como infraestrutura estratégica de desenvolvimento, capaz de articular crescimento econômico, inclusão social e projeção internacional.
O audiovisual brasileiro como setor estratégico – avanços recentes e limites estruturais
A trajetória histórica do audiovisual brasileiro demonstra ciclos de expansão prioritariamente impulsionados por instrumentos públicos de fomento e regulação. Pode-se mencionar que a criação da ANCINE, a institucionalização do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Lei da TV Paga estruturaram um ecossistema produtivo que ampliou a produção, conseguiu profissionalizar o setor e fortaleceu a presença de conteúdos nacionais nas telas.
Os dados recentes reforçam essa consolidação: o setor audiovisual brasileiro ultrapassou os R$ 25 bilhões de contribuição ao PIB cultural, gerando centenas de milhares de empregos diretos e também indiretos. Paralelamente a isso, a projeção internacional de obras nacionais, tendo como resultado as premiações de Ainda Estou Aqui (Oscar 2025) e O Agente Secreto (Globo de Ouro 2026), evidencia que o país atingiu um patamar competitivo em termos de linguagem, produção, narrativa e imaginário simbólico.
Entretanto, persistem diversas fragilidades estruturais, como abaixo elencadas:
- concentração regional da infraestrutura e dos recursos;
- dependência elevada de financiamento público;
- instabilidade institucional;
- baixa capilaridade territorial da exibição e formação de público.
Esses fatores limitam a capacidade de expansão sustentável do setor.
Arquitetura regulatória – avanços históricos e lacunas contemporâneas
Atualmente, o modelo regulatório brasileiro combina incentivos fiscais, fomento direto e mecanismos de indução de conteúdo nacional. Assim, a Lei do Audiovisual, o FSA e a Lei da TV Paga criaram bases sólidas para a retomada e expansão do setor.
Contudo, esse arcabouço foi concebido para um ecossistema totalmente analógico e linear. A ascensão do streaming e das plataformas digitais tencionou diretamente esse modelo criado há tempos, gerando diversas assimetrias regulatórias relevantes, como:
- plataformas OTT (Over-the-Top é a distribuição de conteúdo de vídeo, áudio e outros, como filmes, séries, músicas, diretamente pela internet) operam fora das obrigações impostas à TV paga;
- não contribuem proporcionalmente para fundos públicos de fomento;
- concentram dados, audiência e poder de recomendação algorítmica.
O resultado observado atualmente é um ambiente competitivo bem desequilibrado, no qual produtores nacionais disputam espaço com conglomerados internacionais altamente capitalizados e com capilaridade de exibição global.
ANCINE e Fundo Setorial do Audiovisual – capacidade estatal e governança do fomento
A ANCINE desempenha um papel central na organização do setor audiovisual brasileiro. Sua atuação continua a articular a regulação econômica, o monitoramento de mercado e a gestão dos principais instrumentos de financiamento disponibilizados no mercado nacional.
Por outro lado, o FSA se consolidou como um dos maiores fundos públicos de audiovisual da América Latina, com linhas bem definidas e voltadas à produção, à distribuição, à infraestrutura técnica e para a inovação. No entanto, sua operação enfrenta há muito desafios recorrentes, como:
- morosidade administrativa;
- concentração regional de recursos;
- instabilidade política e contingenciamentos constantes;
- alta complexidade burocrática para pequenos e médios produtores.
Do ponto de vista da governança pública, esses gargalos impactam diretamente a previsibilidade do setor e reduzem, sobremaneira, a atratividade dos investimentos privados complementares nas obras e produções nacionais.
Streaming e digitalização – o principal desafio estrutural da próxima década
A transformação digital redesenhou completamente o mercado audiovisual. As plataformas de streaming ampliaram o alcance global das obras, mas também introduziram novas formas de concentração econômica e simbólica.
O paradoxo brasileiro é evidente: o país conquista reconhecimento máximo em festivais e premiações globais – como demonstram as vitórias recentes no Oscar e no Globo de Ouro – enquanto enfrenta baixa presença proporcional de conteúdos nacionais nos catálogos das plataformas e ausência de mecanismos robustos de indução regulatória.
Sem atualização do marco regulatório digital, o risco é estrutural: o Brasil seguirá exportando talentos e obras pontuais, mas terá dificuldade em consolidar um ecossistema sustentável de produção contínua, distribuição equilibrada e retorno econômico interno.
Formação de públicos – a base invisível da sustentabilidade cultural
Um dos pilares menos visíveis – porém mais estratégicos – da economia criativa audiovisual é a formação de público. Prestígio internacional não se converte automaticamente em base social de consumo cultural.
Mesmo após a vitória histórica de Ainda Estou Aqui no Oscar, o Brasil ainda enfrenta baixos índices de letramento audiovisual, concentração de salas de exibição e consumo majoritário de conteúdos estrangeiros.
Políticas públicas voltadas à educação audiovisual, mediação cultural, cineclubes, plataformas públicas e integração do audiovisual ao currículo escolar são instrumentos estruturantes. Elas ampliam repertório, fortalecem demanda interna e criam condições para a sustentabilidade de longo prazo do setor.
Considerações finais
Para onde deve caminhar a gestão pública do audiovisual?
O audiovisual brasileiro reúne ativos excepcionais: diversidade cultural, capacidade criativa, reconhecimento internacional e impacto econômico relevante. No entanto, sua consolidação como eixo estruturante da economia criativa exige uma nova agenda institucional.
Para gestores públicos, os principais eixos estratégicos são:
- atualizar a regulação do streaming e das plataformas digitais;
- garantir previsibilidade e estabilidade ao fomento público;
- descentralizar recursos e infraestrutura territorialmente;
- fortalecer a ANCINE como agência técnica e estratégica;
- integrar formação de público e educação audiovisual às políticas estruturantes;
- estimular internacionalização coordenada do conteúdo brasileiro.
O ciclo recente de premiações globais demonstra que o Brasil possui capital simbólico competitivo. O desafio agora é institucional: transformar reconhecimento internacional em desenvolvimento sustentável, soberania cultural e fortalecimento do mercado interno.
A Orion Desenvolvimento Organizacional também atua no desenvolvimento de projetos institucionais no campo cultural, ao apoiar governos, instituições culturais e organizações públicas na estruturação de políticas, projetos e também modelos de governança capazes de alinhar a cultura, a inovação e o desenvolvimento territorial.
